O Naturalismo é um dos pontos chave dessa novela. Vejamos: a linha naturalista é um movimento que ocorre em outros segmentos do audiovisual; na telenovela começa com Beto Rockfeller, em 1968, na TV Tupi, que se utilizou de diálogos coloquiais, imitando exatamente como o povo falava no dia a dia. Não se pode negar que Avenida Brasil veio dessa escola. Os diálogos fluíam naturalmente.
E não foi apenas nos diálogos que se percebeu o naturalismo; os gestos e as atitudes naturais de cada personagem ajudaram a delinear melhor o papel de cada uma na trama, sem que, para isso, fosse necessário usar uma palavra. Falar de um vestido feio, reclamar de uma empregada que não consegue abrir uma garrafa de vinho, esbarrar em um personagem e continuar a cena – assim foi Avenida Brasil. Essa atmosfera naturalista criou uma verossimilhança com a vida real, pois ao ver a novela, muitos se reconheceram na tela. É possível ter aquela atitude, é possível comer daquela maneira, ter um bar perto de casa parecido com o do Silas, ter um salão igual ao da Monalisa.
Em Avenida Brasil percebe-se também a referencia de João Emanuel ao mestre do suspense. Quando Genésio (Tony Ramos), o pai de Nina (Débora Falabella), é atropelado por Tufão, antes de morrer sussurra no ouvido do ex-jogador de forma muito semelhante a que o agente americano Ben faz com o personagem interpretado por James Stewart no filme O homem que sabia demais de Alfred Hitchcock. E esse foi só o começo. Quando Nina domina a casa e chantageia Carminha com fotos dela com seu amante Maxwell (Marcelo Novaz), a luz sombria lembrava filmes da gramática do horror; a personagem de Nina andava em uma moto e foi enterrada por Carminha assim como a personagem interpretada por Uma Thurman no filme de Quentin Tarantino Kill Bill; as cenas no lixão tinham a linguagem de documentários como Estamira, de Marcos Prado, dentre outros exemplos.
Uma das grandes novidades, se não a maior que João Emanuel Carneiro trouxe, foi ajustar para telenovelas o ritmo dos seriados americanos. Avenida Brasil, como todo folhetim, sempre terminava com um gancho, mas no capítulo seguinte esse gancho se resolvia e criava-se outro. Os episódios completavam a ação que era proposta e, para o final do capítulo, outras ações eram propostas para o próximo. Na avenida principal tínhamos a trama de vingança de Nina sobre a Carminha, mas nos entremeios dessa trama houve várias bifurcações como se fosse seriados como, por exemplo: o amor de Darkson por Tersália; a traição de Leleco e Muricy; o caso de Nina e Maxwell; a história em comum de Nina e Jorginho; Tufão se apaixonando por Nina; a história de Adalto; Cadinho e suas três mulheres entre outros.
Um último ponto importante e inédito na TV, foi o fato de o núcleo principal da novela estar todo no subúrbio, cabendo à Zona Sul estrelar a comédia. Mesmo assim, no final, todos os personagens ficaram no mesmo espaço geográfico, o Bairro do Divino.
A sensação no dia do último capítulo de Avenida Brasil foi a de estar vivendo um momento histórico. Antes da apresentação do capítulo que finalizou a trama, o Jornal Nacional mostrou as ruas dos grandes centros do País vazias, pessoas em bares se reunindo para ver a resolução da trama de João Emanuel, redes sociais bombando durante a exibição do último capítulo, com cada um dando sua opinião sobre o que acontecia.
João Emanuel talvez tenha realizado sua obra prima, daquelas mais autorais possíveis em que se reflete na tela todas as facetas, todas as fontes que você bebeu para criar a sua própria fonte. No país que reconhecidamente produz as melhores telenovelas do mundo, Avenida Brasil certamente ficará na memória como um novo caminho para o gênero.
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